2007/01/20

Pelas vítimas da nossa intolerância e indiferença

Claro que vou votar SIM no referendo, pois como médica, preocupo-me com as pessoas, com a sua saúde e os seus problemas, e sei que demagogias, discussões morais ou teológicas são, na prática inconsequentes e em nada ajudam a vida humana, apenas a prejudicam. Porém, choca-me tanta histeria em torno de embriões que estão dentro da barriga do alheio (não os embriões excedentários da fertilização «in vitro»,claro! Pois esses podem ser mortos, em clínicas credenciadas, por «criminosas» ou «infanticidas», maioritariamente ricas, que matam por uma nobre causa). Em contraste, há o silêncio e passividade social de todas essas «associações» em relação ao sofrimento de crianças indezejadas, tratadas como meros objectos pelos nossos tribunais, e brutalmente arrancadas do carinho protector de pais adoptivos, com quem construíram as suas mais fortes relacções de afecto, para serem entregues a desconhecidos que, por azar, partilham os seus genes, sendo como tal, seus proprietários incondicionais, e que embora as tenham abandonado ainda no útero materno (razão que leva muitas mulheres a abortar), dignam-se aparecer, mais tarde, para reivindicar os seus inúmeros direitos, estragando a felicidade e estabilidade da criança. Tudo isto, com o aval de juízes que mandam para a prisão aquele que cumpriu os deveres paternais do faltoso e, sem se porem no lugar da criança ou defenderem os seus direitos mais elementares, a entregam a estes indivíduos pouco credíveis, sem qualquer vigilância ou apoio psicológico, partindo do ingénuo pressuposto que o amor paterno vem codificado nos genes e que mudar de pais aos 5 anos é como mudar de camisa!
Não admira, pois, que com tal forma de fazer justiça sejamos um dos maiores produtores europeus de tragédias infantis como Vanessa, Catarina, Edgarzinho e muitos outros. A próxima vítima já se adivinha, no horizonte e tem um nome - Esmeralda.
Enquanto dirigimos cruzadas contra as mulheres e em defesa de embriões pelos quais nada podemos fazer, (mas apenas lutar contra a pobreza e exclusão social ou pela maior responsabilização dos homens para assumirem as consequências da sua sexualidade), Esmeralda aguarda o seu martírio, condenada por uma juíza irresponsável e insensível.
Porém, desta vez, a sociedade civil é testemunha da incompetência dos técnicos e pode evitar outra tragédia ou sofrimento, basta que cidadãos do SIM ou do NÃO, mas que, realmente, se preocupam com a vida humana de uma criança, se mobilizem, se associem por uma causa comum, salvar Esmeralda de um futuro incerto, mas, seguramente, cruel. Também, o 1º Sargento Luís Gomes e sua esposa merecem o nosso aplauso e solidariedade, pois, como verdadeiros «pais coragem» não hesitaram em dar a sua liberdade por amor a uma criança.

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